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Açores #1 (21 de Outubro)

Verde e azul, as cores que melhor caracterizam os nossos Açores.

Os Açores estavam na minha Bucket List há muito tempo mas os preços exagerados das viagens demoviam-me frequentemente na hora de escolher o destino. Felizmente (para nós viajantes/turistas) as companhias aéreas low-cost foram autorizadas a voar para Ponta Delgada, o que abriu todo um mundo novo ao turismo da ilha de São Miguel. São 9 ilhas que compõe este nosso arquipélago (São Miguel, Santa Maria, Terceira, Faial, Pico, Corvo, Flores, São Jorge, Graciosa) mas desta vez o destino foi apenas São Miguel, a maior ilha do arquipélago onde está situado o Governo Regional dos Açores.

A origem vulcânica deste arquipélago é notória e, em particular, em São Miguel atinge o seu expoente máximo no Vale das Furnas, onde vemos as fumarolas e onde fazem o famoso Cozido das Furnas.

O voo da Ryanair das 10h15 atrasou-se por motivos que me são alheios, e a viagem durou cerca de 1h50min, foi uma viagem rápida e tranquila. Sempre que voo numa companhia low-cost tenho a sensação que vou num autocarro regional. O aeroporto de Ponta Delgada é um aeroporto muito modesto, mais pequeno que o da Madeira (as comparações entre ilhas são inevitáveis), que suspeito que com os Açores no mapa das low-cost dentro de anos precisará de uma ampliação, mas isso só o tempo o dirá.

A melhor forma de conhecer a ilha, atendendo a que não me fiz acompanhar de um ilhéu (mas pedi dicas a uma), é alugar um carro e partir à descoberta. A Ilha Verde (empresa de aluguer de automóveis) alugou-nos um Nissan Micra para estes dias, um carro modesto mas muito versátil nestas ocasiões.

Gosto de ficar alojada em sítios centrais, e ainda que desta vez não tenha usado a plataforma de que fiquei fã em Amesterdão (Airbnb), escolhemos o Hotel Alcides mesmo perto das portas da cidade de Ponta Delgada.

Nos Açores tive de acertar o relógio, a diferença é de uma hora relativamente ao continente, pelo que quando a minha barriga começou a dar horas, ainda só batiam as 12 badaladas. O meu estômago não é sensível a fusos horários pelo que nos fizemos à estrada mediante o roteiro que tínhamos em vista e demos logo com o Cais 20 em São Roque, um restaurante com petiscos maravilhosos e uma vista para o mar (nas ilhas o que é difícil é não ter vista para o mar). Fiquei fã das ovas fritas e das bacalhetas que pedimos para entrada. Claro que quando chegou o prato principal (bife de tubarão e naco de vitela na pedra com ananás) a fome já se tinha esfumado há muito. O Cais 20 é um restaurante bom mas um bocadinho caro para os padrões de uma pessoa normal como eu.

Não fosse o caminho a subir e tínhamos ido a rebolar, tal não foi a abundância do almoço.

Seguimos viagem para Lagoa e daí subimos para a Lagoa do Fogo. Nos Açores é obrigatório parar em tudo quanto é miradouro, há vistas de cortar a respiração, há parques de merendas nos miradouros, passar só na estrada não basta, é preciso parar e absorver aquela paisagem.

A Lagoa do Fogo, classificada como Reserva Natural, é a segunda maior lagoa de São Miguel e é também a mais alta, daí o vento gelado que por lá se fazia sentir. Fica na caldeira de um vulcão adormecido, pode chegar a atingir 30 metros de profundidade e tem uma beleza natural deslumbrante.

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Seguindo para o lado norte da ilha por estradas ladeadas de hortenses (que nesta época não estavam totalmente floridas, mas dá perfeitamente para perceber o efeito) e parámos na Caldeira Velha, que tem um custo de entrada de 2€ por pessoa. Foi a primeira vez nesta viagem que senti o cheiro a enxofre mas tem umas piscinas termais com aquela água férrea quentinha que dá vontade ali ficar a tarde toda.

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O Monumento Natural da Caldeira Velha localiza-se na vertente norte da serra de Água de Pau, em Ribeira Grande, na periferia da Reserva Natural da lagoa do Fogo. Nas caldeiras a água ferve e há mesmo o aviso a alertar os visitantes para o perigo de queimadura, mas mais abaixo, onde a água desce em cascata lá estão as piscinas termais onde o visitante se pode banhar e usufruir das propriedades medicinais da água.

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Ainda na Ribeira Grande tivemos a oportunidade de visitar a fábrica de Licores da Mulher do Capote. Os licores de maracujá e de ananás são os que têm mais fama, no entanto têm agora um de arroz doce que faz as delícias dos visitantes. Não se paga entrada para visitar a fábrica e podemos ver todo o processo e no fim ainda nos dão a provar, na loja da fábrica, os licores que quisermos testar.

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Como me tinham aconselhado, parámos em tudo quanto era miradouro e pudemos ver paisagens muito bonitas que registámos na nossa mente e algumas foram mesmo alvo de fotografia.

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No norte o mar tem ar de quem morde, violento, as ondas rebentam com toda a força da natureza e é um espectáculo bonito de assistir.

Passámos na famosa localidade de Rabo de Peixe e é como me diziam, há muita gente que passa o dia na porta dos cafés, no degrau das portas a ver a vida passar, sem nada fazer, sem nada procurar. Ali o tempo tem outra dimensão, tem o ritmo daquelas vidas que parece que já nada procuram.

Há em São Miguel vários lugares com piscinas naturais, as primeiras que vi foi nas Calhetas. A comparação com as piscinas naturais de Porto Moniz (na Madeira) foi inevitável, tenho-as visto vezes sem conta pelo que me ocorreu que poderiam estar mais bem aproveitadas, ainda assim deve ser um sítio agradável para se passar uma tarde no Verão.

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Dali seguimos para a Fajã de Baixo e fomos à procura das famosas estufas de ananás Augusto Arruda. Foi bastante fácil dar com o sítio, mas foi uma pena ninguém da loja das estufas (os estufeiros já deveriam ter saído àquela hora) se ter disponibilizado a fazer uma visita guiada ou pelo menos a dar uma explicação do processo de cultivo e crescimento do ananás. Em vez disso mantiveram-se dentro da loja a queixar-se do frio e quando me dirigi à loja para comprar um doce de ananás ainda tive de levar com a antipatia de uma senhora e a mudez de outra.

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De acordo com o folheto que trouxe da estufa, o processo do cultivo do ananás demora na sua totalidade cerca de ano e meio.

O ananás (Ananassa Sativus Lindl) cultivado em estufas de vidro na ilha de São Miguel é originário da América Central e do Sul tendo sido introduzido mesta ilha, como planta ornamental, em meados do séc. XIX. As primeiras explorações de carácter industrial e comercial surgiram por volta da década de sessenta do séc. XIX. Actualmente é no concelho de Ponta Delgada que se concentra o maior núcleo de estufas ainda em actividade.

As estufas são, na sua maioria, de formato rectangular cobertas de vidro caiado formando duas águas com uma inclinação aproximada de 33º e aquecidas pelo Sol. As janelas, ou “alboios”, servem para regular a temperatura e o arejamento do interior da estufa. A estufa está dividida em “tabuleiros” ou canteiros, separados ao meio por um carreiro de pedra, estes por sua vez dividem-se em “vãos” marcados pelo espaço que separa cada ferro de suporte da cobertura da estufa.

A primeira fase da cultura do ananás começa no “estufim”, uma estufa mais pequena onde se planta as “tocas”, estes bolbos escolhidos das plantas que já deram fruta são colocados na terra a uma distância de 10cm entre cada um. Com regas constantes e temperaturas até aos 38ºC a fim de cerca de um mês despontam os “brolhos”, plantio que depois será transplantado para as estufas.

A terra das estufas, chamada “cama” é composta por várias camadas de terra já usada anteriormente (rica em matéria orgânica), farelo e “lenha” (folhagens trituradas de incenso, loiro e faias).

Já nas estufas o “brolho” é disposto de maneira a que cada planta fique a uma distância de 60 cm das outras e cada planta dará um fruto apenas. Após a plantação definitiva a estufa é abundantemente regada durante duas semanas, as regas vão diminuindo progressivamente durante o crescimento da planta e do fruto até serem totalmente extinguidas durante a maturação do fruto.

Cerca de 4 meses após a plantação definitiva tem lugar a operação de “fumo”. Esta operação, descoberta ocasionalmente, funciona como uma intoxicação da planta o que obriga todas as plantas a florescerem ao mesmo tempo permitindo assim uma colheita mais homogénea. Ao fim do dia, em recipientes próprios, queimam-se aparas e verduras de modo a produzir um espesso fumoque invade toda a estufa, no dia seguinte as janelas são abertas para permitir o arejamento. Esta operação dura cerca de oito dias conforme a estação do ano.

Em média o ciclo completo da cultura do ananás dos Açores dura 18 meses e o resultado final é um fruto de características únicas reconhecido como o melhor ananás do mundo.

(Fonte: folheto das estufas Augusto Arruda)

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Jantámos no Restaurante Casa Açoriana, mesmo na rua do hotel, um sítio com comida saborosa e em conta.

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